Você deve estar se perguntando: "mas que diabos de ano memorável pro futebol amazonense foi esse?!". Pois é. É bem verdade que o campeonato local - mais uma vez - deu calo no olho do torcedor que foi aos estádios ou acompanhou tudo pela tv, sem contar que os clubes do Estado - mais uma vez - fracassaram nas competições nacionais. Foi-se a qualidade técnica, mas ficaram muitas histórias dignas de se tornarem lendas amazônicas. Ok, pode não ser pra tanto, mas se você já encontrou por ai algum craque com peito de pombo, um artilheiro de 1,53m ou um técnico que tem como principal arma a oração de joelhos na beira do campo já pode parar de ler esse post por aqui.
Já pra entrar no clima do Campeonato Amazonense, que começa no sábado (28), o Bola pro mato selecionou cinco momentos, digamos, no mímimo curiosos da edição anterior da competição. Vamos a eles!
5- Aposentadoria? Sei
No futebol, um atleta insatisfeito com seu time é capaz de fazer qualquer trambique pra rescindir seu contrato. O meia Igor, que já teve passagem pelo Flamengo em 2003, se tornou uma grande prova disso no ano passado. Vinculado a União Barbarense-SP, que disputava a Série A-2 do Paulistão - uma espécie de Peladão profissional de São Paulo, mas só que sem um monte de meninas feias num concurso de miss -, o jogador disse aos dirigentes do time que sofreu uma lesão crônica, muito grave, o que levaria ao fim prematuro de sua carreira. Solidários, os cartolas do time paulista liberaram o jogador. Mas não demorou uma semana e... Panz! Caramba! Olha só o Igor treinando no Nacional-AM e já sendo escalado entre os titulares! Nenhuma lesão, nem tempo de espera para entrar em forma. O pior é que nem deu pra fazer aquela piadinha sobre uma literal aposentadoria, porque o Igor foi, na humilde opinião do dono deste blog, o melhor jogador do Estadual 2011. Tanto é que ele permaneceu no time pra disputar a Série D e recentemente foi contratado pelo Penarol.
Foto: Arlesson Sicsú
Só acho estranho o Igor ter feito todo esse estardalhaço por causa de um time que não estava nem garantido na última divisão brasileira na época. Ou o Nacional ofereceu uma nota preta pro cara ou então ele fugiu pra não pagar alguma pensão em SP, porque sabe como é, né?
4- O menor artilheiro do Brasil
Caso alguém saiba da existência de um jogador profissional com a estatura mais baixa que a de Almirzinho, que mede 1,53m, me corrija na parte dos comentários. Ele não foi o artilheiro do Estadual do ano passado, mas foi o principal goleador de seu time na época, o Sul América, rebaixado para a lendária Série B amazonense. Não por culpa do pequeno notável, afinal, ele marcou 5 gols na competição e infernizou a zaga de muito time metido a grande. Tal como uma catita, Almirzinho mostrou velocidade e inteligência para fugir dos adversários.
Pra que você tenha uma ideia do tamanho de Almir Neves Pinto, o amazonense é cinco centímetros mais baixo que o Madson, aquele toco de gente que mostrou algum talento no Vasco e começou a enganar todo mundo a partir da sua ida pro Santos.
Foto: Danilo Mello
Fontes confiáveis revelam que já viram o Almirzinho tropeçar na parte de dentro do próprio calção durante uma partida do Amazonão 2011. É que os clubes do Estado ainda não investiram no mercado de uniformes teen.
3- Peito de pombo: as aventuras de Jardel no Amazonas
Tenho certeza de que os amigos internautas do Amazonas ou qualquer outra pessoa que conheceu essa história esperava vê-la no primeiro lugar deste top five. Pra você ver o nível, já chegamos na polêmica passagem de Jardel pelo Clube Atlético Rio Negro. Pra entender melhor o que aconteceu, é preciso voltar um pouco mais no tempo, em meados do segundo semestre de 2010. Prestes a montar o planejamento para o ano seguinte do Rio Negro, que na época disputava a segunda divisão local, o presidente do Galo, Eymar Godin, conheceu um empresário brasileiro que estava em Portugal. O sujeito se chama Robson Ouro Preto, que demonstrou ser um empreendedor emergente e que de alguma forma impressionou Godin apresentando uma proposta mirabolante para erguer o clube amazonense. O dirigente rionegrino não só aceitou como também privatizou o departamento de futebol do clube, que ficou nas mãos de Ouro Preto. A partir daí, começou uma avalanche de oba-oba no Galo da Praça da Saudade. Primeiro, o técnico português Paulo Morgado - que pelo simples fato de ser europeu foi considerado uma puta duma contratação - assina contrato com o alvinegro. Em seguida, o atacante Jardel, artilheiro implacável no futebol português do fim da década de 1990, foi anunciado como a grande contratação do clube, ainda em dezembro de 2010. Por fim, jogadores oriundos das divisões de base do Santos completaram o elenco rionegrino. Foi uma badalação só. Montado o circo, o grande palhaço dessa história toda começou a agir. Numa tentativa de justificar a péssima condição física do ex-craque Jardel, o novo dirigente disse que o atacante não estava com uma barriga saliente coisa nenhuma, mas que se tratava de um caso de peito de pombo (ou pectus carinatum, para os cientistas de plantão), uma doença que causa deformação no osso do peito ou qualquer coisa do tipo. Mas o pior estava por vir.
Foto: Danilo Mello
O tempo passou, o campeonato começou, e nada de Jardel ser regularizado junto a CBF pra poder estrear no Rio Negro. Era a pegunta que não queria calar durante o mês de fevereiro. "E o Jardel? Joga quando?". Ele nunca jogou. E o peito de pombo poderia até se sair como inocente nessa história, não fosse sua principal frase após chegar em Manaus: "Vim para ajudar o futebol amazonense crescer". O curioso é que, no clássico entre Rio Negro e Nacional, lá pela terceira ou quarta rodada daquele torneio, o dito cujo apareceu nas arquibancadas do Estádio Ismael Benigno, no Sesi. Após ouvir da repórter da Tv A Crítica a pergunta que ecoava por toda cidade, ele gaguejou, culpou a CBF, culpou a Federação Amazonense de Futebol (FAF), só não culpou a Luíza, porque ela tava no Canadá e já até voltou. No grand final, ele soltou a seguinte: "Isso mostra que o futebol daqui ainda tem muito o que melhorar". Ué? Mas onde estava o salvador do futebol amazonense?
Acredite ou não, o Jardel foi apenas coadjuvante nessa história. Depois que todo mundo finalmente se tocou que aquele alvoroço todo não passava de uma mera supervalorização do que era medíocre, os problemas passaram a ir além da conta. Os jogadores do Rio Negro passaram o campeonato inteiro sem ver a cor do dinheiro prometido por Robson Ouro Preto, que segundo o presidente do clube, não cumpriu com nenhum item proposto no contrato de terceirização. Até a alimentação dos jogadores estava comprometida, o que fez com que torcedores do clube doassem 'ranchos' para o elenco pelo decorrer das semanas.
Foto: Danilo Mello
Tia Rosário Almeida, rionegrina fanática, com as sacolas cheias de comida pra entregar aos jogadores. O Ouro Preto ainda dizia que nem precisava disso e que eram só "frutinhas". Coincidentemente, o Rio Negro (o rio mesmo) acabara de sofrer a terceira maior seca de sua história, em outubro de 2010.
Agora dê uma olhada no vídeo em que o Jardel faz a declaração citada acima e tire suas próprias conclusões.
2- Se oração ganhasse jogo...
... o time que fosse treinado pelo técnico Carlos Prata seria sempre o campeão. Só bastaria ele ter ciência do seu dom divino e aprender a fazer os pedidos certos, mas que funciona, funciona! O milagre aconteceu no dia 2 de fevereiro de 2011, na segunda rodada do Campeonato Amazonense daquele ano. Transcorriam 35 minutos do primeiro tempo no jogo entre São Raimundo e Nacional, quando o atacante nacionalino Edinho Canutama foi derrubado na área pelo goleiro adversário. Capitão do time, o volante Jonas pegou a bola e se preparou para a cobrança. O momento era decisivo dentro de campo, mas as atenções de muitos estavam voltadas para o banco de reservas do Tufão, como é conhecido o São Raimundo. Carlos Prata se ajoelhou e começou a rezar. Uma atitude não tão incomum se não fosse levado em conta todo o ritual feito pelo treinador. Eis então que o cobrador do Nacional se posiciona, parte pra bola, chuta e...
Pra fora! Para o êxtase de Prata, que fez uma cara de choro mais feia que a do Ronaldinho fazendo careta numa dividida, flagrado pela super câmera lenta da Globo. O problema é que ele não foi esperto na prece. Provavelmente Carlos Prata pediu pra Deus apenas que o jogador adversário errasse a penalidade máxima. Isso aconteceu, mas, de qualquer forma, o São Raimundo perdeu por 2 a 0. O treinador poderia ser um pouquinho mais audacioso e ter pedido logo a vitória.
Agora, seu vídeo ainda tá carregado ai? Volta lá e dá uma olhada no uniforme do goleiro reserva do São Raimundo, quando ele aparece atrás do Carlos Prata. É pra Jorge Campos nenhum botar defeito.
1- Façanha heroica em Itacoatiara
Segure-se ai na cadeira do seu trabalho (porque eu sei que é onde você tá nesse momento) que essa vai pro "acredite se quiser". Foi na tarde do dia 11 de maio de 2011, penúltima rodada do segundo turno do Campeonato Amazonense. Chovia muito no Estádio Floro de Mendonça, no município de Itacoatiara (fica a 176 quilômetros a leste de Manaus), enquanto Penarol e Operário se enfrentavam. No segundo tempo, quando o jogo estava empatado em 0 a 0 e o Penarol já havia realizado suas três substituições, o zagueiro Lídio sofreu um corte no supercílio direito após uma dividida e foi levado imediatamente para o hospital. Um grande problema para o time, treinado por Uidemar Oliveira. O tempo passou, o jogo foi chegando ao seu final e o Penarol resistiu como pôde a pressão do adversário. Faltando 10 minutos para o fim da partida, todos foram surpreendidos por uma cena estranha. Um jogador com o uniforme do Penarol e com a cabeça toda enfaixada apareceu na beira do campo e tentou, freneticamente, chamar a atenção do árbitro. A displicência do homem do apito era compreensível, visto que o time já havia feito suas três alterações. Para o espanto de todos, o jogador era Lídio, que conseguiu retornar do hospital nos momentos finais do jogo. E a tarde dessa quarta-feira ainda reservava um momento inacreditável para a torcida do Penarol. No último lance do jogo, a bola foi lançada para a área. Lídio subiu mais alto que todo mundo e, com pontos no supercílio e tudo, cabeceou para o fundo do gol adversário. O zagueiro deu a vitória ao Penarol e, por mais que a imprensa amazonense pouco tivesse repercutido este feito na época, ele também entrou para a história.
Ah! Pra quem ainda tá estranhando a rapidez com a qual o Lídio voltou do hospital, é simples: ele fica bem ao lado do Estádio. O cabra rasgou o supercílio, foi levado rapidamente até a enfermaria e retornou para o Florão.
Depois desse jogo, acredito que falei por todos quando indaguei: Quem é Chuck Norris?
E esses foram cinco de muitos momentos inesquecíveis de 2011 enquanto a bola rolou no mato. E olha que ainda tem muita história por contar.
Já percebe-se que o futebol amazonense é igual a Sessão da Tarde, pois apesar de estar fraquinho há muitos anos, tem sempre uma turminha irada, que apronta altas confusões.





Nenhum comentário:
Postar um comentário